A IA está resgatando o que sempre funcionou
A maioria fala de IA como motor de coisas novas. O uso mais valioso é o oposto: resgatar metodologia que sempre funcionou e que o mercado tinha desistido de aplicar.
2025 termina com algumas convicções que entraram, outras que saíram, e uma que ficou mais forte do que estava no começo do ano.
Opero um portfólio de empresas. Algumas são minhas, algumas são tech-for-equity, algumas estão num modelo intermediário. Setores variam de tecnologia, saúde, serviços, varejo, e operações industriais menores. A única coisa em comum é que cada uma é o motor social de um conjunto de pessoas que dependem dela.
Olhando pra trás, esses são os aprendizados que sobreviveram à reflexão.
Comecei o ano querendo aplicar o mesmo ritual de gestão em todas: reunião mensal de 90 minutos com OKRs, dashboard padrão, check-in semanal com liderança. Funcionou em algumas. Nas outras, criou ruído.
Empresa de varejo tem ciclo curto (semana, vendas). Indústria tem ciclo longo (lote, contrato). Tech tem ciclo intermediário (sprint). Forçar todas pra um ritual mensal era atravessar cadências naturais que nunca foram pensadas pra esse formato.
Voltei atrás. Cada empresa tem hoje seu ritual, alinhado ao ciclo natural do negócio. Eu adapto, não elas.
Em empresa pequena, o CEO precisa saber tudo. Quem é cada cliente, quanto custa cada operação, qual o problema do mês de cada pessoa do time. Granularidade total é vantagem competitiva.
A partir de certo tamanho, isso vira problema. Tentar saber tudo cria gargalo (tudo passa por você), bloqueia gestão intermediária (porque você sempre interfere), e te queima.
A transição é o ponto mais difícil de gestão. Vi vários CEOs travarem nessa passagem em 2025. Alguns reconheceram e ajustaram. Outros insistiram e estão pagando o preço em rotatividade da liderança.
A grande virada de gestão é decidir conscientemente o que você vai parar de saber.
Olhei tributário em todas. A grande maioria tinha espaço de otimização considerável. Não era nada exótico. Era aplicar bem o que já é permitido por lei. Lucro Real vs Presumido em situação adequada. Distribuição correta entre empresas do grupo. Crédito de PIS/COFINS não capturado. Imobilizado mal classificado.
Isso não é hacking fiscal. É revisão tributária que uma Big Four cobra centenas de milhares de reais pra entregar. Pra essas empresas, a conta não fecha — então ninguém faz.
Em 2025, a redução tributária acumulada foi a alavanca mais subutilizada de todo o portfólio. Custo: tempo meu mais alguns advogados especializados pontuais.
Quando moderniza tecnologia em empresa estabelecida, todo mundo fala de eficiência operacional, redução de custo, velocidade de processo. Tudo verdade. Mas o ROI maior é em duas coisas que ninguém mensura:
Eficiência operacional é o subproduto. Tempo e qualidade de decisão são o produto.
Quase ninguém sai porque o salário tá baixo. Saem porque a chefia direta é ruim, porque o trabalho perdeu sentido, porque sentiram que pararam de aprender, ou porque a estrutura virou tóxica.
Quase ninguém fica porque o salário tá ótimo. Ficam porque acreditam no negócio, gostam de quem trabalham junto, sentem que estão crescendo.
Empresa que entende isso aloca recurso de gestão, não só de RH. Liderança intermediária é a variável crítica. Gerente médio bom retém time. Gerente médio ruim perde gente boa todo mês, e a contabilidade só se sente seis meses depois.
Comecei o ano achando que era contraintuitivo. Termino o ano com mais convicção. Algumas tentaram apertar o passo em 2025. Algumas perderam talento crítico. Outra perdeu cliente importante. Nenhuma chegou no resultado adicional que justificasse o estresse.
A maioria que aceitou velocidade de cruzeiro cresceu de forma sustentável, com fluxo de caixa melhor do que tinham no fim de 2024. Uma não cresceu, mas reorganizou processos e está pronta pra saltar em 2026 sem precisar empurrar.
Aceitar a cadência natural não é defensivo. É estratégico.
A maioria fala de IA como motor de coisas que ainda não existem. O uso mais valioso da IA no portfólio em 2025 foi o oposto: resgatar o que já funcionava.
Big Four cobra centenas de milhares pra entregar revisão tributária, plano de contas estruturado, modelo financeiro decente, estudo de cadeia de suprimento. Esse conhecimento sempre esteve em livro, em paper, em template. O acesso era a barreira — não o conteúdo.
IA derruba a barreira de acesso. O que antes era exclusivo de empresa que pagava consultoria de elite agora cabe num prompt bem feito mais a revisão de quem entende. Não é mágica. É destilação.
Quem só olha pra frente perde. No passado tem ouro — métodos testados, frameworks que sobreviveram a três crises, manuais escritos por quem operou pesado. IA bem usada é o caminho mais rápido pra trazer esse ouro pra dentro de uma empresa média que nunca teve acesso.
A empresa do futuro não vai ser a que abandonou o passado. Vai ser a que conseguiu, finalmente, aplicá-lo.
Aprofundo essa tese em A IA está resgatando o que sempre funcionou.
2025 foi um bom ano. 2026 promete ser mais quieto. Quieto, no meu vocabulário, é elogio.